TRÊS CONSTRUÇÕES MÍTICAS
 Instalações das Artistas
 
CARMEN FUNCIA SIMÕES
ANA MARIA ALMEIDA
 
HELENA DONZELI  
 
 
 
O círculo dos cristais  - Carmem Funcia Simões , 1998
Onde reside o rei - Ana Maria Almeida, 1998
O ovo da serpente - Helena Donzeli
 

Período: 13 a 28 de maio / 99

leia matéria no jornal Correio Popular


INSTALAÇÕES: “Três construções míticas” 

ANA MARIA ALMEIDA - “Onde reside o Rei” 
CARMEN FUNCIA SIMÕES - “O Círculo dos Cristais” 
HELENA DONZELI - “O Ovo da Serpente” 

 Como caracterizar estes trabalhos que vieram de uma série de procedimentos anteriores, desde a colagem talvez Surreal, até suas posteriores traduções intersemióticas nas construções do texto à pintura e posteriormente ao tridimensional? O que parece ficar claro que estes procedimentos motivadores de um exercício artístico propostos por Cecília Stelini, dera seus frutos, não como uma fórmula para se produzir arte, mas como subterfúgios para o afastamento com o real exigido por ela. Neste afastamento, estas artistas foram conduzidas inicialmente por uma cena construída pela técnica de colagem, que funcionou no trabalho como um espelho escondido do público, nos quais inconscientemente, elas foram construindo seus mitos interiores por espelhamentos e desdobramentos no campo simbólico  colhido. O espelho trazia à consciência, fragmentos da memória sugeridos ou induzidos pelas imagens colhidas, remontadas e reorganizadas por juízos e valores. Quando então o trabalho e seu campo simbólico recorre novamente a conceituação escrita e verbal dos elementos ou figuras, produzindo novos frutos. Deste automatismo inicial, semelhante a alguns procedimentos. Dada que buscavam, juntar significados mas, tinham como seu objetivo dissolvê-los. Estamos agora diante do inverso na busca dos significados para ouvi-los, ou melhor ainda, de representá-los. Neste sentido os procedimentos desenvolvidos por estas artistas, encontram-se na direção pós-moderna, pois retomam o caminho da arte como representação, um retorno a factibilidade da pintura e consideram a linguagem como um instrumento de transição de passagem de uma obra para a outra, de um estilo para outro, conforme caracteriza Bonito Oliva o pós-modernismo ao referir-se a Transvanguarda. Soma-se a isso o caráter figurativo das obras apresentadas e a fatura manual empregada nos trabalhos. Quando me refiro a representação do mito, nos três casos podemos ver escolhidos, aqueles aspectos sempre presentes nas representações míticas da humanidade, o altar, a verticalidade e as demarcações de um local sagrado. As instalações conforme já afirmei não estão relacionadas a tradição contemporânea, nem tem compromisso com as vanguardas, recorrem a construções espaciais míticas, como representações espaciais de arquétipos humanos, também não é uma busca do primitivo no sentido da arte Povera, retomando aos elementos: água, terra, fogo e ar; como oposição a um secundário, ao mundo do homem e da técnica. Apontam mais uma busca interna e o retorno da arte a posições ocupadas por ela em culturas primitivas, mescladas a ritos residuais, que também são arquétipos das civilizações pré-colombianas e das influências da civilização grega e de nossa cultura judaico-cristã. 
MARCO DO VALLE  
 03 / MARÇO / 1998 
  


 
 
Na instalação: “ONDE RESIDE O REI”, Ana Maria Almeida, estabelece a noção de altar, do caminho entre o que está no alto como valor que deve ser seguido pelo que está em baixo. 
Representa a noção de passagem, a ascensão da alma, a condução no deserto, que espelha-se no “Mito: Moisés”. Elementos do mito, como a água, o rio como passagem entre dois mundos, a terra prometida, a lei e o alto representado pelo Monte Sinai, os que ficaram pelo caminho na purificação de seu povo voltando a terra, a noção de isolamento e infinito, no encontro da vastidão do deserto e o azul do firmamento, o prateado do metal reunindo simbolicamente dois elementos purificadores água e fogo. Reuniu ainda no altar o ninho e o pássaro simbolizando o destino e concluiu desta forma, a trajetória de Moisés ao avistar do Monte Belo a terra prometida. Portanto o que está no alto da representação é novamente a repetição do que está em baixo, da germinação vegetal ao mundo animal repetindo-se o cosmos e respondendo a um conjunto de metáforas do mito. 

MARCO DO VALLE 
 

Onde reside o rei - Ana Maria Almeida, 1998

  


 
Na instalação: “O CÍRCULO DOS CRISTAIS”, Carmen Funcia Simões, realiza uma representação do mito grego Perseu, herói da libertação, síntese da audácia dos gregos que tinham nas expedições marítimas suas principais fontes de riqueza. A Medusa é parte do mito e personifica os perigos do mar. O mito de Perseu e a luta com a Medusa simbolizam a guerra íntima travada na busca pelo conhecimento de si, ideal supremo da moralidade grega. O círculo está virtualmente apresentado nesta Instalação. Um ângulo aberto de pigmentação e areia onde cristais-ninfas das águas e cerâmicas-ninfas da terra com forma de dentes de tubarões, parecem designar os perigos dos mares. A possibilidade da petrificação ao olhar diretamente para a Medusa, e a solução de Perseu ao confrontar-se com ela munido de seu escudo polido. Este escudo nada mais era que o espelho da verdade. Focalizando seu alvo, o filho de Zeus conseguiu matar seu inimigo. Neste trabalho podemos observar na pigmentação aspectos da pintura desenvolvidos pelo processo anterior. 

MARCO DO VALLE 
 

O círculo dos cristais  - Carmem Funcia Simões , 1998

  


 
Na instalação: “O OVO DA SERPENTE”, Helena Donzeli, trás os mitos da cultura do milho das civilizações pré-colombianas dos Incas, Astecas e Maias. A serpente aparece em diversas simbologias desde a serpente princípio enigmática-secreta e que tem multiplicidade primordial e que não cessa de desenroscar-se, desaparecer e renascer. A serpente que é a divindade das nuvens e da chuva fertilizadora, o “Pássaro Serpente” que está presente nas mais antigas religiões da cultura do milho como a Serpente Emplumada Quetzalcol da civilização Maia patrona da agricultura. Nesta  instalação a noção de verticalidade e local sagrado é resultante de uma representação híbrida entre a reprodução ovípara do réptil e a germinação da cultura do milho. As raízes profundas para a terra, o local de germinação, sua superfície de reprodução e a verticalidade do vegetal demarcam o local do ninho da serpente, seus ovóides e sua reprodução junta-se a estes um enigmático “barco” e logo acima do chão pairam as divindades com suas fendas. 
Três instalações míticas que nos traz à memória o papel significativo que nossos ancestrais artistas desempenhavam em suas culturas. 

MARCO DO VALLE 

O ovo da serpente - Helena Donzeli

 


Galeria de Arte UNICAMP/IA